Crystal Renn
Enquanto modelos como Lara Stone, Freja Beha e Crystal Renn invadem as passerelles, novos ícones de beleza tomam finalmente o poder na Moda. E com maioria absoluta.
No dia em que o designer canadiano Mark Fast devidiu convidar modelos de diferentes tamanhos, idades e raças para vestir as suas propostas para o Verão 2010, duas vidas profissionais mudaram subitamente de rumo. Uma das stylists da equipa criativa da Fast, que pediu a demissão a poucos dias do desfile da marca na semana de Moda de Londres, e a do próprio designer, símbolo inesperado da luta por uma moda mais democrática e plural. Ao seu ldo, estiveram criadores como Marc Jacobs, Miuccia Prada ou Limi Feu, também eles cohecidos pelos critérios abrangentes segundo os quais elegem as modelos para os seus desfiles, e marcas de beleza como a Dove, responsável por uma inovadora campanha publicitária em nome da beleza real. As sementes da mudança estavam plantadas, mas as vozes da controvérsia, vindas das facçõs mais conservadoras da indústria, pareciam determinadas em impedi-las de fluorescer. Estaria a moda prestes a escrever um novo capitulo da sua história ou apenas a atravessar uma fase de maior abertura?
"O mundo da Moda está cansado e modelos supermagras e de figuras que, de tão bonitas, se tornam indiferentes", avança a maquilhadora Charlotte Tilbury. Para a antiga directora criativa de Helena Rubinstein, que já maquilhou modelos como Kate Moss e Lara Stone e actrizes como Eva Mendes e Gwyneth Paltrow, esta mudança de paradigmas de beleza assenta numa série de novas tendências paralelas. "O recente ressurgir das modelos com mais de vinte anos é um exemplo disso", aponta. Um revival que trouxe de volta à moda mulheres mais velhas, como Laura Hutton, de 66 anos, e Kristen McMenamy, de 45. Enquanto Hutton surgiu num editorial da revista Love, pedindo expressamente para que as suas fotografias não fossem retocadas, McMenamy e os seus longos cabelos grisalhos foram capa da Vogue Italia de Agosto último. (...) "Claro que os ideiais de beleza estao sempre a reinterpretar-se, mas acho que, agora, há definitivamente espaço para que modelos de diferentes tamanhos, idades e géneros se transformem em nomes grandes na moda", acrescenta a maquilhadora.
(...) Até Karl Lagerfeld, crítico acérrimo da imagem de Moda que as modelos plus-size representam, parece ter mudado de opinião. Embora visivelmente mais magra do que na capa da sua autobiografia, Hungry, ou nos editoriasis de moda que protagonizou para a Vogue Paris e para a Harper's Bazaar russa, Crystal Renn surgiu, recentemente, em vários desfiles e campanhas publicitárias da Chanel. (...) "Se os mundos da Moda e da Beleza querem sobreviver, especialmente nos tempos de crise que atravessamos, têm de aceitar esta diversidade", diz-nos ainda Sam McKnight. Prova disso são as actrizes de Hollywood dos dias de hoje, mulheres bastante menos perfeitas do que as modelos, mas tantas vezes eleitas para protagonizar campanhas editoriais de moda e beleza.
Quer queiramos, quer não, o facto é que são cada vez mais os designers, os fotógrafos e os editores a unir-se em nome do fim da ditadura da perfeição. "É muito fácil vestir mulheres de silhuetas perfeitas", comenta o criador Mark Fast. "Desenhar peças que assentem bem a todas é que é o verdadeiro desafio". E as colecções de moda para este Inverno estão aí para comprová-lo. Assim como Marc Jacobs fez desfilar mulheres absolutamente normais, Limi Feu optou por raparigas de rostos e corpos comuns para vestir as suas peças. "Se fotografássemos apenas raparigas de beleza clássica, todos nos fartaríamos de olhar para estas imagens, diz Rankin. "As modelos com visuais diferentes e interessantes criam imagens memoráveis e, mais importante do que isso, permitem que as pessoas se identifiquem com elas".
Já Natalie Joos, directora de casting da semana de Moda em NY, revela-se menos optimista. "A Lara Stone trabalhou como modelo durante anos até ser reconhecida", lembra. "Há um momento para todas as tendências". Mas isso não significa que a tendência não tenha inspirado mudanças. Numa altura em que os reality shows ainda imperam e os blogues de moda e beleza ganham cada vz mais expressão na indústria, o público parece ter cada vez mais facilidade em aceitar a "normalidade". "A democracia de corpos e feições que agora vemos nas passerelles é muito mais representativa das pessoas que de facto compram roupa", acrescenta Natalie Joos. A maquilhadora Charlotte Tilbury vai mais longe: "O significado da beleza nos dias de hoje não é a perfeição, mas sim aquelas pequenas particularidades que fazem com que uma modelo brilhe entre os milhares de raparigas que traabalham na indústria".
Sinais de que a aura de sonho que desde sempre envolveu o universo da moda está prestes a desfazer-se? Não. Apenas à beira de (mais) uma reinvenção.
In Vogue (Portugal), edição Novembro de 2010.